Quando no passado fim-de-semana se assinalava o Dia Internacional da Paz caças franceses bombardeavam território iraquiano dando seguimento à ofensiva militar anunciada pelos EUA para alegadamente combater o chamado «Estado Islâmico». Na passada terça-feira os planos norte-americanos e dos seus aliados na região tornaram-se ainda mais claros. A acção militar estendeu-se, como já era previsível, a território sírio. Apoiados pelas ditaduras do Golfo, pela NATO e por Israel, os EUA avançam, mais uma vez na História, para uma violação grosseira do direito internacional e da soberania de um Estado sem qualquer mandato da ONU, tentando mascarar a sua ilegal acção com um «aviso prévio» à Síria pelos canais diplomáticos das Nações Unidas. Entretanto Israel abate um avião sírio nos Montes Golã, ocupados ilegalmente por Israel, dando um claro sinal do que está em causa com esta nova guerra no Médio Oriente.
O imperialismo norte-americano enche a boca com a campanha do combate ao feroz, bárbaro e imparável «Estado Islâmico» e aos «radicais». A paranóia dos «Jihadistas» espande-se por todo o Mundo, chegando até a Portugal, imagens de reféns circulam por todo o Mundo, as célebres degolações escandalizam a opinião pública mundial. O «civilizado» ocidente declara guerra ao terrorismo e aos «bárbaros». Mas tudo não passa de uma gigantesca e hipócrita campanha mediática que visa dar cobertura a uma estratégia que nada tem a ver com a defesa dos direitos dos povos. Deixamos aqui apenas dois elementos que comprovam o grau de hipocrisia e de manipulação de tal estratégia.
O primeiro são as gigantescas mentiras sobre a súbita preocupação com o «Estado Islâmico» que, do nada, se transformou numa das maiores ameaças globais. É importante sublinhar que o nascimento do ISIS (sigla do estado islâmico do Iraque e do levante, agora renomeado «estado islâmico») está ligado a dois importantes factores: a estratégia dos EUA de instigação à divisão sectária entre sunitas e xiitas no Iraque, e – muito importante – as manobras conspirativas e de ingerência contra a Síria que resultaram na criação do «Exército Sírio Livre» que congrega mercenários, agentes e combatentes estrangeiros e que nas suas fileiras integra ou integrou organizações terroristas como a Frente Al-Nusra e o ISIS. Um «exército» que teve como um dos seus principais «dirigentes» Ibrahim al-Badri, o actualmente conhecido «califa» Abu Bakr al-Bagdadi, o «chefe» do «Estado Islâmico». As ligações de Al-Bagdadi aos serviços secretos ocidentais e turcos são referenciadas em vários relatos, e se dúvidas houvesse bastaria a fotografia tirada em 2013 de uma reunião secreta entre John Mc-Cain (um dos falcões norte-americano) e Al-Bagdadi, então integrante do núcleo dirigente do Exército Livre Sírio, para dissipá-las. Ou seja, os EUA dizem hoje combater uma organização que foi financiada e armada pelos próprios EUA, pela Arábia Saudita, Qatar e Turquia e cujos «efectivos» foram treinados em campos de treino na Turquia e na Jordânia.
O segundo elemento é o discurso em torno das atrocidades cometidas pelo «Estado Islâmico». Mas também aqui impera a mentira e a hipocrisia. Os EUA dizem não tolerar as degolações, mas toleraram e apoiaram organizações que as fizeram em massa na Síria, que aí semearam o terror bombista e levam a cabo autênticos massacres. Sobre esses crimes nem uma palavra, tal como relativamente às 600 crianças mortas na Palestina em 59 dias por Israel ou sobre o caos em que está mergulhada a Líbia. Isto porque o que move os EUA e seus aliados é tão somente um objectivo: vergar a resistência Síria «empurrando» para este país o «Estado Islâmico» e com isso justificar aquilo que até agora não tinham conseguido, levar a guerra directa à Síria, dividir este país e também o Iraque e, por via da divisão, manter o domínio da região numa situação de «caos controlado».